Casa da Leitura, Portugal

Apresentado oficialmente ao grande ao público em Fevereiro de 2007, há cerca de dois anos e meio, o projecto Casa da Leitura nasceu entre 2005 e 2006 de uma ideia de António Prole, quadro da Direcção Geral do Livro e das Bibliotecas, primeiro coordenador da equipa, a partir do seu conhecimento da realidade portuguesa no que dizia respeito à promoção da leitura feita até então. Financiado integralmente pela Fundação Gulbenkian, o projecto integra uma pequena equipa de especialistas em diferentes áreas, nomeadamente na leitura, na literatura para a infância e na promoção da leitura no contexto das bibliotecas da rede pública, como é o caso dos bibliotecários.

Ao criar, numa plataforma em suporte digital, de acesso livre e gratuito, um conjunto de informação sobre questões ligadas à mediação de leitura, o Projecto Casa da Leitura procura responder às questões e às dúvidas dos mediadores actuais; coligir e disponibilizar actividades práticas de animação da leitura; assim como muitos documentos de cariz mais ou menos teórico, capazes de suscitar a reflexão e de ajudar a aprofundar os conhecimentos dos mediadores nos diversos domínios de aprendizagem da leitura, da literatura para a infância e da ilustração, entre muitos outros.

Dividida em duas grandes salas, o sítio da net propõe, de um lado, no SOL – Serviço de Orientação da Leitura, informações diversificadas, divididas em quatro categorias : «Livros da minha infância», «Vidas e Obras»; «Temas» e «Livros de outras casas». Nas três primeiras, podem-se encontrar-se documentos pdf com testemunhos de figuras públicas mais ou menos conhecidas (no primeiro caso); informações sobre a vida e obra alguns escritores e ilustradores de referência (no segundo item); selecções de obras e pequenos comentários relacionados com critérios temáticos, genológicos ou outros (no terceiro) e, finalmente, completando a selecção, a análise e o comentário de mais de 1500 títulos de literatura para a infância e juventude, uma centena e meia de obras publicadas em países estrangeiros, com vista a estimular a sua tradução e edição em Portugal. As obras, catalogadas segundo diversos critérios e ficando acessíveis através de vários tipos de pesquisa, estão divididas de acordo com as competências leitoras das crianças e dos jovens. Partindo da metáfora do mocho sábio – que também teve que ler muito para desenvolver a sua sabedoria – foi criada uma distinção entre quatro tipos diferentes de leitores, de acordo com as suas competências: pré-leitores, leitores iniciais, leitores medianos e leitores autónomos. Esta imagem, que se tornou também numa espécie de símbolo do projecto e do site, em articulação com as cores correspondentes às diferentes etapas, permite distinguir os livros escolhidos em função da sua qualidade estética, literária e plástica.

Na segunda sala – ABZ da leitura – descobre-se tratada uma base considerável de apoio bibliográfico na secção «Bibliografia», sempre em actualização constante como, aliás, toda a casa. Algumas dezenas de estudos, sobretudo em português, castelhano e galego, abarcando diversos temas, estão disponíveis integralmente na secção «Orientações Teóricas», procurando contribuir para a formação dos mediadores e investigadores nestas áreas. Há ainda lugar, na secção «Laboratórios», para a apresentação de alguns projectos desenvolvidos nas bibliotecas que funcionaram como laboratórios na realização de experiências monitorizadas com diferentes grupos de crianças, tal como fica claro nas «Práticas», onde são disponibilizados exemplos do trabalho realizado. Estes documentos, alvo de consulta assídua, funcionam como sugestões de trabalho a partir de livros seleccionados. A actividade é descrita de forma detalhada, tendo em conta as suas diferentes etapas, incluindo a preparação, indução ou pré-leitura, a leitura e interpretação, e a pós-leitura. O mediador pode experimentar aplicá-la tal e qual ou é livre de adaptar ao seu grupo e ao contexto de trabalho no qual actua.

Prevista para três anos, a primeira fase do projecto terminou com uma grande conferência internacional – Formar Leitores para Ler o Mundo – que teve lugar em Lisboa no passado mês de Janeiro. Esta iniciativa, que contou com mais de 900 participantes, integrou diferentes temas – literatura para a infância, leitura, práticas de promoção da leitura – foi enriquecida com a participação de numerosos especialistas, dos quais se destacam Peter Hunt, Michel Fayol, Fernando Savater, entre muitos outros.

Podemos com segurança afirmar que estas estratégias favorecem as práticas leitores e promovem o gosto pela leitura? Para nós ainda não chegou a altura de responder de forma definitiva a esta questão. Mas já é possível analisar alguns resultados parciais. O projecto procura aproximar as crianças de livros de qualidade e da leitura desenvolvendo as competências e os conhecimentos dos mediadores, tendo em conta o seu papel nesta tarefa. Se, nos anos 50 do século passado e nas décadas que se lhes seguiram, era fundamental para o nosso país uma iniciativa como a das bibliotecas itinerantes, neste momento torna-se indispensável o trabalho de recolha de informação dispersa e diversa, a sua análise e selecção criteriosas com vista à divulgação, de forma útil, acessível e prática, junto dos potenciais interessados. Trabalhando, de forma articulada, entre as editoras, os investigadores e especialistas e os mediadores, este projecto combina investigação científica e difusão/divulgação do conhecimento numa plataforma acessível, visual e esteticamente agradável, a praticamente todos.

Ana Margarida Ramos (Casa da Leitura, Portugal)

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